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A importância da Radioterapia após a Mastectomia (retirada total da mama)


A radioterapia é indicada em determinadas pacientes portadoras de câncer de mama, após o procedimento cirúrgico. Existe um déficit de serviços de radioterapia no mundo e, maior ainda, no Brasil.

Um trabalho realizado na Inglaterra há alguns anos, mostrou que a paciente inglesa leva em média 80 minutos de sua casa até o centro de radioterapia. Isso porque a Inglaterra é imensamente menor que o Brasil......

Na região em que trabalho, não existem serviços à disposição. Pacientes do SUS são encaminhadas atualmente para Campinas (Hospital Boldrini) ou São Paulo ( principalmente Hospital Heliópolis). Pacientes que dependem do transporte assistencial das prefeituras, dispendem em média 8 horas para se descolar ao serviço de radioterapia, realizar o procedimento e retornar à cidade natal. Isso quando o transporte não precisa aguardar outros pacientes ou passar em outros hospitais. Lembrando que a radioterapia, pode durar de 15 à 35 dias, de segunda à sexta feira.

Para as pacientes portadoras de planos de saúde, a situação não é melhor. Em nossa região, elas são referendadas para São Paulo e Campinas.

Além da questão logística, existem também os efeitos colaterais, que aparecem em intensidades diferentes e tempos diferentes (mais precoces ou até alguns anos após o término). Apesar da crença popular de que é “um Raio-x” ou “banho de luz” na região da cicatriz, não é bem assim que funciona. Muitas mulheres que apresentaram efeitos colaterais, entendem do que estou falando. Vemelhidão local, aumento da temperatura, queimaduras mais profundas, bolhas, sangramento, dificuldade de movimentação do braço, alterações gástricas e esofágicas e até alterações dentárias, podem ser relatados como efeitos colaterais. Mulheres que foram submetidas à reconstrução mamária imediata com próteses e expansores, apresentam maior chance de complicações locais e até perda do implante, quando expostas à radioterapia.

Diante destas dificuldades, existe um movimento mundial para tentar diminuir os tratamentos para o câncer de mama, chamado descalonamento, ou em inglês, de-escalonation.

Entretanto inúmeros trabalhos mostram a necessidade da radioterapia após pacientes submetidas à mastectomia, para diminuir as chances da doença retornar no local operado, chamada recidiva local.

Um grupo de pesquisadores em câncer de mama, chamado EBCTCG (Early Breast Cancer Trialists’ Collaborative Group), avaliou 22 trabalhos sobre a radioterapia após mastectomia e cirurgia axilar, compreendendo 8.135 mulheres, estabelecendo a chance de recidiva local em 10 anos e o impacto na mortalidade em 20 anos.

Foram então 8.135 mulheres aleatoriamente designadas para grupos de tratamento durante 1964 e 1986, em 22 estudos de radioterapia na parede torácica e nódulos linfáticos regionais após mastectomia e cirurgia axilar versus a mesma cirurgia, mas sem radioterapia. O acompanhamento durou 10 anos para recorrência e até 1o de janeiro de 2009 para mortalidade.

Nestes gráficos abaixo, vemos a chance de recidiva local, divididos em pacientes sem linfonodos positivos na axila (Gráfico A), de 1 a 3 positivos na axila (Gráfico B) e mais de 4 linfonodos positivos na axila (Gráfico C):




Gráfico A – Ausência de metástase na axila







Gráfico B – 1 a 3 linfonodos com metástase









Gráfico C – Mais de 4 linfonodos com metástase








Como vocês podem notar, para pacientes que não tem metástase na axila, a radioterapia não apresentou maior proteção. Em contrapartida, para pacientes com linfonodos metastáticos na axila, a radioterapia apresenta grande proteção para evitar a volta da doença.


Ao avaliarmos a sobrevida em 20 anos ( quantas pacientes estarão vivas em 20 anos), as pacientes também foram divididas em ausência de metástase em axila (Gráfico D), 1 a 3 linfonodos positivos em axila (Gráfico E) e mais de 4 linfonodos (Gráfico F):





Gráfico D

Ausência de metástase axilar















Gráfico E

1 a 3 linfonodos com metástase axilar
















Gráfico F

Mais de 4 linfonodos com metástase axilar














Com relação à sobrevida em 20 anos, percebemos também que a radioterapia não ofereceu maior proteção às pacientes sem metástase em linfonodos axilares. Entretanto aquelas que tinham linfonodos com metástase na axila, tiveram proteção maior quando receberam radioterapia.

Como conclusão os pesquisadores demonstraram que após a mastectomia e dissecção axilar, a radioterapia reduziu a recorrência e a mortalidade por câncer de mama em mulheres com metástases axilares, mesmo quando a quimioterapia foi administrada. Sabemos então que um tratamento não substitui o outro. Para as mulheres de hoje, que em muitos países têm menor risco de recorrência, os ganhos absolutos podem até ser menores, porém os ganhos proporcionais podem ser maiores devido a uma radioterapia mais eficaz e com menos efeitos colaterais.


Fonte: Effect of radiotherapy after mastectomy and axillary surgery on 10-year recurrence and 20-year breast cancer mortality: meta-analysis of individual patient data for 8135 women in 22 randomised trials. EBCTCG (Early Breast Cancer Trialists’ Collaborative Group).

Lancet 2014; 383: 2127–35



Colaboração : Dra Vanessa de Oliveira Arruda, CRM 193.179, médica residente em Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Universitário São Francisco, Bragança Paulista.

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